A criança necessita que o adulto responda a suas perguntas de maneira bem objetiva e simples, para que ela vá construindo seu modelo de mundo.

Esse tema foi brilhantemente abordado por dois pesquisadores norte-americanos: Daniel Goleman, autor de “Inteligência emocional” e John Gottman, autor de “Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos”, mas podemos aqui delinear alguns aspectos básicos do assunto, enfocando especificamente o contexto social brasileiro, em nossos dias.

No início do século XX, o nosso modelo educativo obedecia aos princípios delineados pelos pedagogos europeus, predominantemente oriundos da Alemanha e da Inglaterra, o que se traduzia numa educação rígida e opressora. Com as primeiras teorias psicológicas, surgiram os conceitos de trauma e a proposta de que as crianças pudessem dispor de mais atenção e atendimento às suas necessidades emocionais, o que realmente era necessário, naquela época.

Com as intensas transformações ocorridas na estrutura familiar e social, nas últimas décadas, chegamos aos dias de hoje com uma séria distorção dessas teorias, as quais são traduzidas num psicologismo expresso pela insegurança dos pais diante da necessidade de impor limites de comportamento aos seus filhos.

Passamos de um extremo ao outro, novamente perdendo o ponto de equilíbrio ditado pela sabedoria de aliar a razão à emoção.

Como John Gottman tão bem sinaliza em seu livro, podemos encontrar quatro tipos de comportamento dos pais diante das questões emocionais e comportamentais de seus filhos:

a. Os pais que tentam desviar a atenção da criança de uma atividade inadequada, para que ela não experimente frustração.

b. Os pais que deixam a criança simplesmente fazer o que quer.

c. Os pais que reprimem, sem explicar o porquê da proibição.

d. Os pais, verdadeiros educadores, que exercem a função de explicar o mundo à criança, estabelecendo limites de comportamento e ajudando-as a lidar com suas emoções negativas e positivas.

Vamos então procurar compreender cada um desses tipos de comportamento educativo:

Se uma criança, de cerca de dois anos, pega os óculos da vovó de cima de um móvel, e os pais simplesmente tentam desviar-lhe a atenção para outra atividade, não a ajudam a construir parâmetros de limite para o seu comportamento, com base no seu próprio direito e no direito das pessoas com quem ela começa a conviver.

Isso dificulta à criança desenvolver a capacidade necessária de tolerância à frustração, que será uma das bases de seu ajustamento ao convívio social.

Se, nesse mesmo caso, os pais simplesmente permitem que a criança quebre os óculos da vovó, porque ela ainda não sabe o que faz, isso expressa pouco caso em relação à propriedade alheia e, com a repetição do modelo, mais tarde, esse padrão comportamental irá se traduzir no desrespeito que hoje observamos, principalmente em relação ao patrimônio público (jardins pisoteados, lampiões e telefones públicos quebrados, paredes pichadas, lixo por toda parte, etc.), dificultando-se assim o estabelecimento de um convívio social saudável.

Quando os pais simplesmente reprimem, sem dar explicações à criança, ela não tem a oportunidade de começar a desenvolver um senso de avaliação, de critérios de escolha, que futuramente irão lhe permitir interagir de maneira construtiva com o seu meio social, a partir de um código de valores bem estruturado.

No exemplo acima, significa que os pais simplesmente batem na mão da criança, sem lhe dizer nada que a oriente a construir um modelo de comportamento diante dos óculos que podem se quebrar.

Se a criança pega os óculos da vovó, de cima de um móvel, e os pais lhe dizem, com voz firme: “Ah!, não, deixe aí, são da vovó! Se caírem, vão se quebrar!”, ela começa a desenvolver uma compreensão quanto ao direito de propriedade, que será registrado em seu inconsciente como um modelo interno, favorecendo o desenvolvimento posterior de comportamentos de autocontrole (nem tudo que desejamos pode ser feito e o direito de cada pessoa termina onde começa o direito do seu semelhante).

A partir dos seis meses de idade, embora ainda não compreenda o sentido das palavras, a criança reage ao tom de voz e expressão fisionômica das pessoas, podendo perceber a diferença entre um tom firme, delimitador, e um tom de voz permissivo. Por volta do primeiro ano de vida, a criança já identifica os sentidos de “sim” e “não”, como sempre associados ao tom de voz e à expressão. Um “não” com voz permissiva é uma mensagem dupla, que pode deixar a criança confusa, cuja ordem subliminar a informa que pode continuar o comportamento objeto da aparente reprimenda, o que se torna uma ação educativa ineficaz, gerando hábitos de desobediência.

Por volta dos três anos, já com um vocabulário mais bem desenvolvido e a capacidade de compreensão de palavras com significados concretos, a criança necessita que o adulto responda a suas perguntas de maneira bem objetiva e simples, para que ela vá construindo seu modelo de mundo.

No período de sete a quatorze anos, a criança desenvolve capacidade avaliativa, fundamental para o estabelecimento da parte psíquica adulta, a qual, quando bem estruturada, é responsável pela realização de escolhas mais condizentes com o seu modo de ser e com a realidade do mundo à sua volta.

Acolher as emoções infantis, quer positivas, tais como afeto, solidariedade, alegria, etc., ou negativas, tais como raiva, medo, tristeza, etc., oferecendo-lhe modelos, a partir do próprio comportamento dos adultos com quem ela convive, mostrando-lhe em que contexto e de que forma esses sentimentos podem ser expressos, proporciona-lhe caminhos para a estabilidade emocional e parâmetros de avaliação que irão constituir seus valores de vida, tornando esse novo adulto, consequentemente, mais apto a realizações produtivas, quer seja na vida pessoal, quer seja na vida profissional.

Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: Iakovenko/123RF Imagens.

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